Os primeiros passos de uma rede

De Ciberespaço

Assim, em 1958, além de iniciar o desenvolvimento de projetos espaciais, por meio da NASA (National Aeronautics and Space Administration) [1], o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou a ARPA (Advanced Research Projects Agency), [2] com o objetivo de desenvolver pesquisa científica e tecnológica no campo militar.

Em 1962 a ARPA apresentava um grande projeto. Chefiado por Joseph Carl Robnett Licklider (1915-1990), pesquisador do Massachusetts Institute of Technology, consistia na construção de uma ampla rede de comunicação. Essa rede deveria permitir fácil acesso a dados e programas, trabalho em grupo a distância e compartilhamento de recursos, como supercomputadores, por exemplo.

Naquela época, um novo método para transmissão de informação vinha sendo desenvolvido: a técnica de “comutação de pacotes”. Essa técnica consistia em fragmentar uma informação em partes menores (pacotes), enviar essas partes ao seu destino e então reagrupá-las, recuperando a informação. Os pacotes podiam tomar caminhos diferentes e até mesmo chegar fora de ordem. Eram pequenas unidades independentes de informação.

A comutação de pacotes apresentava uma série de vantagens em relação à tecnologia anterior, a comutação de circuitos. Ao contrário desta última, ela permitia que diversos usuários compartilhassem o mesmo canal de informação, facilitava a correção de erros (bastava retransmitir o pacote danificado) e acelerava as transmissões através da compactação dos dados. A comutação de circuitos implicava em estabelecer uma conexão exclusiva entre dois pontos e, assim, somente esses dois pontos podiam usar o canal de comunicação.

Lawrence G. Roberts, sucessor de Licklider na ARPA, levou adiante suas idéias sobre a rede de comunicação. Em 1967, expôs numa conferência da Association for Computing Machinery o plano de construir uma rede de computadores que se chamaria Arpanet.

Foi nesta conferência que Roberts tomou conhecimento de outros dois estudos sobre redes baseadas em comutação de pacotes. Um deles era o trabalho do National Physical Laboratory, na Inglaterra, que vinha desenvolvendo uma rede própria. O outro era um projeto de um grupo de pesquisas da Rand Corporation [3], patrocinado pela Força Aérea dos Estados Unidos. A Rand era na época uma empresa dedicada ao desenvolvimento de projetos de alta tecnologia, a maioria para o Departamento de Defesa americano.

O estudo da Rand, chamado On Distributed Communications (Sobre Comunicação Distribuída), fora desenvolvido três anos antes por um pesquisador da empresa, Paul Baran. Baran propunha um sistema de comunicação resistente a ataques inimigos que continha conceitos inovadores: rede distribuída e caminhos redundantes.

Como foi descrito acima, o estudo da Rand era totalmente independente do projeto da ARPA. Mas é comum confundir os dois projetos. E uma das confusões diz respeito à capacidade que a rede teria de resistir a ataques nucleares. Na verdade, só no projeto da Rand isso estava presente. Segundo depoimentos de seus idealizadores, a construção da Arpanet sempre levou em conta robustez e confiabilidade, incluindo a capacidade de resistir a grandes perdas, mas nunca fez referências diretas a ataques nucleares, como no projeto da Rand.

Em 1968 a Arpanet começou a tomar forma. O desenvolvimento do sistema de comutação de pacotes ficou a cargo da empresa BBN (Bolt Beranek and Newman). Em 1969, quatro universidades norte-americanas foram escolhidas para funcionar como nós da Arpanet: Universidade da Califórnia em Los Angeles, Universidade de Stanford – através do Stanford Research Institute –, Universidade da Califórnia em Santa Barbara e Universidade de Utah.

Dois anos mais tarde, já eram quinze nós interligados. Em 1972, durante a International Computer Communication Conference, em Washington, foi feita, com sucesso, a primeira demonstração pública da Arpanet. Foi também neste ano que Ray Tomlinson, da BBN, inventou o correio eletrônico e que Vinton Cerf, pesquisador da Universidade de Stanford, foi eleito presidente da International Network Working Group, uma organização encarregada de definir os rumos da Arpanet. Em 1973 foram estabelecidas as primeiras conexões internacionais, integrando à rede centros de pesquisa da Inglaterra e da Noruega.

A enorme utilidade da rede ficou logo evidente, pois se mostrou um extraordinário meio de troca de informações científicas. De fato, os acervos, bancos de dados e recursos computacionais das grandes universidades podiam ser compartilhados amplamente, graças ao novo sistema de interligação.

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