Um admirável mundo novo

De Ciberespaço

Não há como escapar. O ciberespaço tomou conta do planeta. Engoliu a todos nós – homens, máquinas e replicantes –, incorporando nossas virtudes e nossos defeitos. O ciberespaço deu vida à aldeia global. Ele é a alma de um novo mundo em formação. Um mundo…

· compartilhado. As conexões da Internet são recursos limitados. Ou seja, há uma quantidade máxima de dados que pode trafegar por um canal de comunicação. Esta capacidade máxima de transmissão é chamada largura de banda (bandwidth). Diversos usuários utilizam um mesmo canal de comunicação, isto é, eles compartilham sua largura de banda. E não existe privilégio ou prioridade entre eles: fotos pornográficas e dados científicos disputam o mesmo canal de comunicação. Portanto, como qualquer outro recurso escasso – água, gás, energia elétrica – deve ser usado de forma racional, moderada. É uma questão de respeito ao interesse coletivo.

· complicado. O computador é nossa via de acesso à Internet, nossa porta de entrada para o ciberespaço. Saber lidar com ele, hoje, é essencial. Mas, infelizmente, essa poderosa máquina ainda é, para muitos, complicada, obscura, imprevisível e temperamental – um bicho-de-sete-cabeças. Deve-se, então, trabalhar no sentido de desmistificar o computador, facilitar seu uso, aprimorar sua interface e torná-lo acessível e amigável a qualquer um. Quando isto for possível, acessar e explorar a Internet será mais fácil do que é hoje.

· conectado. Quase que instantaneamente, informações sobre o preço das ações da bolsa de valores de Hong Kong atravessam o mundo e chegam às telas dos computadores de investidores nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Da mesma forma, em apenas alguns segundos e a um custo ínfimo, uma mensagem eletrônica cruza continentes e chega ao seu destinatário. A Internet forma hoje um verdadeiro emaranhado de redes. Há centenas de espinhas dorsais (backbones) espalhadas pelo planeta que garantem as conexões vitais da Internet. Estão interligadas por fibras ópticas, ondas de rádio, satélites, cabos submarinos, etc. Outros sistemas de comunicação, como a telefonia celular, vêm aumentar ainda mais essa teia de ligações.

· cooperativo. Na Internet a cooperação é algo bastante comum. Existem, por exemplo, inúmeros grupos de discussão sobre os mais diversos assuntos onde usuários mais experientes esclarecem dúvidas e problemas de outros usuários. Um outro exemplo são programas de computador desenvolvidos em cooperação por programadores voluntários espalhados pelo mundo. O exemplo mais famoso é o sistema operacional Linux, amplamente utilizado e disponível gratuitamente. A própria definição de especificações e padrões para a tecnologia usada na Internet é bastante democrática: baseia-se nos conhecidos Request for Comments (RFC). São documentos técnicos ou informativos disponíveis publicamente. Qualquer usuário pode ler, comentar, enviar sugestões e relatar experiências sobre o assunto.

· democrático. Homens, mulheres, GLS, machistas, feministas, crianças, adultos, casados, solteiros, divorciados, estudantes, professores, intelectuais, cientistas, empresários, políticos, desempregados, jornalistas, médicos, advogados, engenheiros, psicólogos, banqueiros, bancários, esportistas, artistas, escritores, magos, charlatões, radicais, conservadores, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, ativistas, ecologistas, terroristas, capitalistas, fascistas, anarquistas, socialistas, hippies, freaks, punks, góticos, ravers, clubbers, nerds… todos, estão todos na Internet. Nunca foi tão fácil divulgar idéias e opiniões. Qualquer um pode montar uma home page na World Wide Web (porção multimídia da Internet) e publicar o que bem entender. É onde playboy.com e disney.com vivem lado a lado, a um clique de mouse de distância. A Internet também é uma ferramenta de descentralização. Tomem-se como exemplo os milhares de veículos de notícias existentes na rede. Quando vamos à banca da esquina, encontramos apenas dois ou três grandes jornais que dividem o mercado entre eles. Revistas nacionais importantes? Duas ou três. Sem falar na televisão, dominada por uma grande rede. Com a Internet, essa meia dúzia de fontes de informação pula para algumas centenas. Publicar conteúdo na rede é muito fácil e barato. Neste novo mundo, pequenos e grandes podem ser iguais. A home page de uma pequena revista de notícias pode chamar tanto a atenção quanto a poderosa home page da Time. Teremos centenas de pequenas Times, concorrendo entre si, algumas melhores, outras piores, sempre ao gosto do usuário. É o que se chama de “dispersão do emissor”. Quando lemos um jornal, o emissor está claramente identificado. Mas quando navegamos na Internet, absorvendo informações aqui e ali, a figura do emissor se vaporiza, se fragmenta.

· digital. Sistemas analógicos transmitem informações na forma de sinais contínuos (ondas). Já os sistemas digitais usam seqüências de bits (abreviação de binary digits) para transmitir informações. Os bits são representados por zeros e uns. A tecnologia digital, em detrimento dos sistemas analógicos, vem conquistando cada vez mais espaço. Primeiro foram coisas simples, como os relógios de pulso, que trocaram engrenagens e ponteiros por chips e cristal líquido. Hoje, a revolução digital avança pelas mais diversas áreas, de telecomunicações (telefonia celular digital) a entretenimento (televisões digitais de alta definição).

· dispersivo. A Internet é uma excelente mídia para a comunicação e uma poderosa ferramenta para o trabalho em grupo e para a educação. Mas seu uso pode ser completamente desvirtuado se ficarmos apenas jogando conversa fora com desconhecidos nos chats (salas de bate-papo na Internet), enviando piadas em e-mails e navegando por home pages de times de futebol. Não que isso deva ser proibido ou evitado, mas dosado por cada um. Neste oceano de informações, “navegar é preciso”, mas com sabedoria! A Internet deve ser uma ferramenta produtiva. Talvez seja por isso que Brendan Kehoe, autor de Zen and the Art of the Internet – um famoso guia de Internet para iniciantes – diga no prefácio do livro: “Um alerta talvez seja necessário: esse território em que entramos pode se tornar um fantástico sugador de tempo. As horas voam, as pessoas vão e vêm, e você ficará preso no ciberespaço. Lembre-se de fazer seu trabalho!”

· elitista. Se não houver a preocupação de levar as novas mídias a todos os segmentos da sociedade, somente uma minoria privilegiada poderá usufruir de seus recursos. Todas as escolas, públicas e privadas, devem lutar para conseguir computadores e conexões na Internet. “Seria um passo positivo se os governos (…) dessem oportunidade de acesso a estudantes e professores.” As palavras são de Bill Gates, presidente da Microsoft. Contudo, não podemos depender apenas do governo na difícil empreitada de democratizar o acesso à Internet. E Gates sabe disso. Muitas empresas, como a própria Microsoft, fazem doações de computadores a escolas nos Estados Unidos. Publicidade à parte, a iniciativa é louvável.

· engajado. Afinal, somos uma aldeia, uma comunidade, somos netizens, uma contração de net (rede) e citizens (cidadãos). Uma mensagem que se espalhou pela rede pregava “apoio e solidariedade ao povo do Timor Leste”, um pequeno país da Ásia (ex-colônia de Portugal) dominado e explorado pela Indonésia. O e-mail convocava as pessoas a boicotar produtos feitos na Indonésia. Além disso, organizações de todos os tipos estão presentes na rede. Defendendo os direitos humanos, há a Anistia Internacional [1]. Defendendo o meio-ambiente e os animais, há o Greenpeace [2] e o WWF (World Wildlife Fund) [3]. Outra organização – auto-proclamada revolucionária – que há tempo já faz uso da Internet é o Exército Zapatista de Libertação Nacional [4], de Chiapas, México. Um de seus líderes, o subcomandante Marcos, e outros guerrilheiros zapatistas usam o e-mail para divulgar informações sobre seu movimento.

· enganoso, fantasioso, falacioso. O ciberespaço é um mundo repleto de boatos, lendas, mitos, mentiras e brincadeiras. O agravante em relação ao “mundo real” é que as informações – verdadeiras ou não – espalham-se muito rapidamente. Parece que os internautas têm o péssimo hábito de acreditar em tudo que vêem na rede. Qualquer informação que recebem, tratam logo de repassá-la para os amigos e estes fazem o mesmo, propagando a informação a uma velocidade assustadora. De fato, uma pesquisa realizada pela United Press no início de 1998 revelou que usuários de computador confiam mais nas informações que encontram online do que nas provenientes de fontes convencionais, como jornais ou televisão. Em fevereiro de 1998, um boato envolvendo a empresa Nike espalhou-se através do correio eletrônico por todo o mundo. As mensagens diziam que aqueles que enviassem seus tênis velhos para um programa de reciclagem da Nike receberiam tênis novos em troca. É verdade que a Nike possui um programa de reciclagem de tênis usados, mas o programa não incluía oferecer tênis novos no lugar dos velhos. Por mais insólita que fosse, muitas pessoas acreditaram na história, e a Nike diz ter recebido centenas de pares de tênis. No Brasil, o boato mais famoso espalhado pela Internet aconteceu após a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo da França, em 1998. Uma mensagem intitulada “Denúncia Gravíssima” espalhou-se pelo Brasil inteiro. Ela afirmava que o Brasil havia vendido a Copa do Mundo para a Fifa. Em troca, sediaria a Copa de 2002 e teria seu caminho “facilitado” rumo ao penta-campeonato. A história teve repercussão nos jornais e na televisão e jogadores chegaram a comentar o caso.

· frenético. Depois do correio, do telefone e do fax, inventamos o quase-instantâneo e-mail. Mas nossa obsessão por velocidade parece não ser saciada nunca. Hoje, onde quer que vamos, levamos conosco celulares e pagers. Nossas conexões com a Internet dobram de velocidade de tempos em tempos. Mesmo assim, nunca estamos satisfeitos. Graças à tecnologia, algumas empresas funcionam hoje 24 horas por dia. Estas empresas possuem escritórios nos Estados Unidos e também na Europa ou na Ásia. Assim, enquanto empregados estão apagando as luzes numa unidade em Chicago, um novo turno começa em Bangalore, na Índia. Os trabalhos são feitos através da Internet e levam agora metade do tempo para serem concluídos – o que é valiosíssimo em tempos de globalização. As novas tecnologias aceleram cada vez mais a comunicação entre os homens. E o nosso pensamento deve acompanhar essas mudanças. Se antes vivíamos num mundo agitado, hoje vivemos num mundo frenético.

· globalizado. Neste novo mundo, não há fronteiras à comunicação. As informações correm por infoways a milhões de bits por segundo. As notícias chegam e partem de todos os cantos do globo. As TVs a cabo trazem a BBC, a Bloomberg, a CNN, a Deutsche Welle, a NBC e o Cartoon Network para dentro de nossas casas. Através da Internet, lemos jornais norte-americanos, visitamos museus em Paris, compramos CDs em Londres, assistimos canais de televisão da Espanha, ouvimos rádios da Croácia.

· inseguro. Os computadores do governo americano, que supostamente seriam os mais bem protegidos do mundo, sofrem centenas de invasões todos os anos, o que prova que o desenvolvimento de sistemas de segurança tem muito chão pela frente. Afinal, imagine, num futuro não tão distante, quando todas as nossas informações pessoais estiverem armazenadas em formato digital: toda a nossa “vida” vai estar guardada em computadores do governo, de companhias de seguros, de bancos, etc. A integridade e a segurança desses dados será fundamental, tanto para prevenir fraudes quanto para evitar que tenhamos nossas “vidas” apagadas ou adulteradas. O mundo virtual tem muito a desenvolver nos campos da privacidade e da segurança. A identidade das pessoas é outro problema do ciberespaço. Enviar mensagens anônimas ou mesmo se passar por outra pessoa é relativamente fácil na Internet. Talvez seja por isso que a Casa Branca responde por carta as mensagens eletrônicas endereçadas ao presidente. A fim de evitar fraudes eletrônicas, ainda é mais seguro usar papel e tinta e o bom e velho correio tradicional.

· interativo. A televisão é uma mídia unidirecional, pois o fluxo de informação vai apenas do aparelho para você. Quando você assiste televisão, uma das únicas possibilidades de interação é mudar de canal. A Internet traz mais interatividade, exige ação por parte do usuário (por mínima que seja). Interagir é interferir, alterar, modificar, criar, escolher, selecionar, recusar, pedir, comentar, discordar, etc… É uma mídia bidirecional. No ciberespaço, não interagimos apenas com computadores. Por trás dessas máquinas apáticas, indiferentes, insensíveis e passivas há pessoas – pessoas que opinam, explicam, perguntam, erram, corrigem, ensinam. Comunicar-se é a verdadeira interatividade da Internet.

· multimídia. Quando foi criada, a Internet não podia exibir nada além de texto. Com o passar do tempo, novas mídias foram incorporadas (sons e imagens). Hoje, a Internet constitui-se num sistema multimídia completo: até vídeo e cenários tridimensionais podem ser exibidos. Criou-se assim uma forma de comunicação mais dinâmica, interessante e agradável.

· personalizado. Veículos de comunicação de massa continuam existindo, mas seu conteúdo pode agora ser personalizado. Você escolhe, por exemplo, que assuntos quer receber em seu jornal eletrônico. Pode escolher, também, que programas e filmes você quer ver e em que horário – tecnologia chamada vídeo on demand. Essa nova forma de lidar com a informação vem abalar o paradigma da produção em massa, em que todos recebem o mesmo jornal e assistem aos mesmos programas na TV nos mesmos horários.

· virtual (não-presencial). A Internet forma uma grande comunidade virtual. Virtual porque as pessoas não se encontram pessoalmente, mas se comunicam através de computadores. Há algum tempo, essa interação entre as pessoas se dava basicamente através de texto puro e simples. Restringia-se a mensagens escritas e conversas pelo teclado (chat). Mais recentemente, esse contato entre os usuários deixou de ser tão frio. Já é possível enviar imagens, comunicar-se por meio de voz e até de vídeo. E essas informações (voz e imagens) são transmitidas imediatamente, de um computador para outro, o que é chamado de comunicação em tempo real. Esse tipo de aplicação, porém, ainda requer conexões de velocidade considerável, coisa de que poucos usuários dispõem. Assim, boa parte da comunicação entre as pessoas na Internet ainda é feita através de texto. Mas a virtualidade não se restringe ao homem. A maior livraria do mundo não fica em Nova York, Tóquio, Londres ou Paris. A Amazon Books [5] é uma livraria na Internet, possui um catálogo com mais de dois milhões de títulos disponíveis e despacha livros para o mundo inteiro. Já o Principal Bank é um banco que só opera na Internet. Clientes do banco virtual usam a rede para checar o saldo de suas contas, transferir fundos, fazer aplicações, pagar contas.

Esse é o novo mundo em formação. Com qualidades e defeitos, pois somos nós que o construímos. E como tudo que é feito pelo homem, tem aspectos positivos e aspectos negativos. E o que é positivo para alguns pode ser negativo para outros. Enfim, o único critério que nos pareceu válido para ordenar os diversos aspectos dessa nova realidade é a ordem alfabética, que seguimos.

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